Diário de Classe
Cartilha de Versificação
Luís Campos
Esta
cartilha é Destinada aos jovens poetas, aos alunos do ensino
médio e a todos que desejam aprender os
princípios básicos da
versificação.
Foi escrita de maneira simples e objetiva, com uma
redação coloquial e não abordarei
critérios literários ou fatos
históricos da poesia.
Você poderá aprender a versificar, mas isto
não o fará um poeta.
A versificação é uma
técnica e a poesia é um dom artístico.
*
TEXTOS *
Todo texto desperta em quem o lê a
emoção!
Quando lemos, vemos ou ouvimos algo, temos
reações variadas.
Os sentimentos e as lembranças afloram. A gente pode sorrir,
chorar, ficar alegre, triste, condoído e até
mesmo com raiva.
Podemos lembrar de pessoas, queridas ou não, datas e situações vividas ou presenciadas. Esta é a intenção de quem escreve um texto, seja prosa, poesia ou a letra de uma música; de quem pinta ou esculpe; de quem canta; de quem declama uma poesia; de quem cria uma propaganda; de quem fala em público... e de outras formas de expressão!
Tudo isso provoca reações diferentes em cada um
de nós, mexendo com a nossa emotividade e
imaginação. A idéia da poesia
é provocar essas reações
através do ritmo, da forma e das palavras.
*
TIPOS DE TEXTOS: PROSA E VERSO *
Só existem estes dois tipos de textos.
1. PROSA: Quando a gente escreve qualquer coisa, mesmo que seja um assunto técnico ou didático, estamos escrevendo em prosa. Bilhete, conto, crônica, ensaio, jornal, livro, memorando, monografia, novela, piada, petição, requerimento, revista, romance, tese, etc, são redigidos em prosa. Jogos infantis e peças teatrais, tanto são escritos em prosa quanto em verso. Lembre-se das "cantigas de roda" e dos "autos".
2. VERSO: O verso apareceu primeiro do que a prosa. Quando a gente faz uma poesia, está escrevendo em verso. Também as letras das músicas e os cordéis são escritos em versos. Aquele tocador de viola que declama na praia seus repentes, brincando com as pessoas; aqueles dois repentistas que, dedilhando suas violas se desafiam cantando, estão fazendo isso em verso. Como já disse anteriormente, existem jogos infantis e peças teatrais escritas em verso.
NOTA: Esporadicamente encontramos textos basicamente técnicos, que deveriam ser escritos em prosa, versificados.
* POESIA *
Na poesia padrão, é obedecida regra de
métrica e de estrofe. No verso "livre", inventado pelos
modernistas brasileiros, não há essa
preocupação, pois apenas seguem as pausas e o
ritmo das palavras. Seus versos são chamados "brancos", isto
é, não possuem rimas ao final.
Há muitas letras de músicas em versos brancos ou
livres que, quando as ouvimos interpretadas, são
maravilhosas e nem percebemos que os versos não "rimam"!
*
VERSIFICAÇÃO *
Versificar é fazer versos seguindo alguns critérios básicos que dará à sua poesia sonoridade e ritmo. A versificação pode ser:
1. Regular - quando todos os versos do poema contém o mesmo número de sílabas poéticas, isto é, apresenta uma unidade;
2. Irregular/livre - quando os versos não apresentam o mesmo
número de sílabas em todo o poema.
*
METRO OU MÉTRICA *
Temos dois tipos básicos de metro (métrica):
1. Silábico - Regula-se apenas o número de sílabas;
2. Silábico-prosódico - Além de regular o número de sílabas, observa as características prosódicas, isto é, a variação na altura, intensidade, tom, duração e ritmo da fala.
NOTAS:
1. Metro duracional ou quantitativo - Quando se exige um
número específico de sílabas; 2. Metro
dinâmico - Coloca-se a pulsação
silábica, mais forte ou mais fraca, em
posições predeterminadas; 3. Metro tonal -
Trabalha com a variação de altura dos fonemas
(mais graves ou mais agudos).
OBSERVAÇÕES: Dentro do mesmo sistema de
versificação, podemos usar dois tipos de metro;
Lembre-se que, no verso, as sílabas fracas e fortes
dão ritmo ao mesmo.
*
ESTROFES *
Um conjunto de versos forma uma estrofe.
Podemos designar como "verso" cada uma das "linhas ou frases" que compõem a estrofe. A estrofe, geralmente, tem de dois a dez versos e são chamadas de:
Dístico - Dois versos; Terceto - Três versos; (Muito usado nos hai Kai) Quadra ou quarteto - Quatro versos; (Usado nas trovas, quadras, cordéis, etc.) Quintilha - Cinco versos; Sextilha - Seis versos; (Muito usado nos repentes e cordéis) Septilha - Sete versos; (Também usado nos repentes e cordéis) Oitava - Oito versos; Nona - Nove versos; Décima - Dez versos. (Também usado em cordéis, repentes e desafios de viola)
NOTA:
As referências entre parênteses não
constituem regra geral.
*
SÍLABAS MÉTRICAS OU POÉTICAS *
As sílabas métricas ou poéticas de um verso diferem das sílabas gramaticais deste, embora muitas vezes coincidam. O número de sílabas métricas nos versos é critério do artista. Os versos, quanto ao número de sílabas poéticas, são chamados:
1. Monossílabo - Uma sílaba;
2. Dissílabo - Duas sílabas;
3. Trissílabo - Três sílabas;
4. Tetrassílabo - Quatro sílabas;
5. Pentassílabo ou Redondilha Menor - Cinco sílabas (Acento na segunda e na quinta sílabas);
6. Hexassílabo - Seis sílabas (Acento na segunda e na sexta sílabas);
7. Heptassílabo ou Redondilha Maior - Sete sílabas (Acento na terceira e na sétima sílabas);
8. Octossílabo ou Sáfico - Oito sílabas (Acento na quarta e na oitava sílabas);
9. Eneassílabo ou Jâmbico - Nove sílabas (Acento na terceira, sexta e na nona sílabas);
10. Decassílabo - Dez sílabas (Acento na sexta e na décima sílabas);
11. Hendecassílabo ou Datílico - Onze sílabas (Acento na segunda, na quinta, na oitava e na décima-primeira sílabas);
12. Dodecassílabo ou Alexandrino - Doze sílabas (Acento na sexta e na décima-segunda sílabas).
NOTA:
1. Versos com mais de doze sílabas são conhecidos
como, "Bárbaros"; 2. O número de
sílabas poéticas de um verso vai até a
última sílaba tônica do mesmo; 3.
Quando a última sílaba de uma palavra termina em
vogal e a primeira da seguinte inicia com vogal ou "H", podemos
considerar estas como uma única sílaba, desde que
ambas não sejam tônicas. Neste caso
estaríamos usando o recurso da " Elisão"
(Acidente poético); 4. Podemos transformar os hiatos em
ditongos e vice-versa. Veremos isso nos "Acidentes
poéticos".
Estes "acidentes" muitas vezes ajudam o artista a resolver alguns problemas de metrificação dos versos. Vejamos alguns:
1. Crase - Encontro de duas vogais átonas iguais em palavras seguidas (adjacentes), como em, "minha alma" e que ficaria assim: minha`alma;
2. Elisão - Encontro de duas vogais diferentes em palavras seguidas, mas quando uma prevalece sobre a outra, como em, "coisa em", onde há a fusão entre o "a" e o "e", prevalecendo a segunda, ficando a palavra assim: coisem ou coisim, dependendo da pronúncia regional, quando se formaria o ditongo "ai" (Sinalefa - Vogais diferentes). O mesmo caso ocorre com "se alegrar", formando-se o ditongo "ea (ou ia)";
3. Sinérese - Transformação de um
hiato em ditongo. A palavra glória é
trissílaba, mas pode ser um "dissílabo
poético", fazendo-se a fusão do hiato "ia", que
passa a ser um ditongo - gló ria;
4. Diérese - O oposto da "Sinérese". Recurso
raramente usado.
5. Eclipse - Suprime-se a ressonância nasal de uma vogal ao fim de um vocábulo, para que ocorra a Sinérise ou a Crase com a vogal adjacente. Usado comumente com a preposição "com" e os artigos definidos, "a, o, as, os", originando "co`a, co`o, co`as, co`os";
NOTA:
Os acidentes abaixo, deixemos para os grandes mestres, por sua
dificuldade de aplicação e, às vezes,
por ser desnecessário.
Aférese - Supressão de som no início
da palavra; Síncope - Supressão de som no meio da
palavra; Apócope - Supressão de som ao final da
palavra; (Entenda-se por "som", uma letra ou uma sílaba).
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RIMAS *
A rima é a coincidência de sons ao final dos versos e é um recurso que ajuda bastante na sonoridade destes, dando-lhe ritmo. Não é a rima que dá beleza ou emoção à poesia, mas o todo. É muito importante o conteúdo e que se siga uma linha de pensamento para que a poesia faça sentido. As rimas podem ser:
1. Quanto à sílaba tônica:
1.1. Soantes - Coincidem vogais e consoantes (lá cá; amar casar; etc.);
1.2. Toantes - Quando os sons são apenas parecidos (eiras eiam; agem ade; etc.).
2. Quanto à posição do acento tônico:
2.1. Agudas - As palavras que rimam são oxítonas (forró vovó; fé pé; abará vatapá; fã galã; amor dor; comer nascer; etc.);
2.2. Graves - As palavras que rimam são paroxítonas (carente acidente; amizade verdade; namorada parada; etc.);
2.3. Esdrúxulas - As palavras que rimam são proparoxítonas (família mobília; história memória; etc.).
3. Quanto à sua distribuição nas estrofes:
3.1. Parelhas - Sucedem-se duas a duas (A A, B B, C C...);
3.2. Alternadas - O primeiro verso rima com o terceiro, o segundo com o quarto e assim sucessivamente (A C, B D, ...);
3.3. Cruzadas - O primeiro verso rima com o quarto, o segundo com o terceiro e assim sucessivamente (A D, B C...);
3.4. Encadeadas - O primeiro verso rima com o terceiro, o segundo com o quarto e o sexto, o quinto com o sétimo e o nono e assim sucessivamente; (A C, B D F, E G I...).
NOTA: As letras entre parênteses, chamadas de "chaves de rimas", significam rimas iguais entre si. Neste caso, a cada uma letra corresponde um verso, numa seqüência lógica destes.
4. Rima pobre e rima rica: Conceito nem sempre seguido pela maioria dos poetas e compositores, de qualquer forma, vejamos:
4.1. Rima pobre: Quando usamos palavras de mesma classe gramatical: (Adjetivo/adjetivo, substantivo/substantivo, verbo/verbo, etc.).
NOTA: Alguns autores chamam a rima pobre de "vulgares", embora as achem boas, visto serem obtidas de palavras não similares, e oferecerem apenas uma pequena identidade de som da vogal predominante e não da total articulação da sílaba tônica, como em: amar/luar, revel/corcel, mata/desata. Embora haja um mínimo de rima, satisfazem ao ouvido.
4.2. Rima rica: Primeiro caso: Quando usamos palavras de classes
gramaticais diferentes:
Adjetivo com substantivo, verbo, etc.
NOTA: A ordem das classes gramaticais acima não representa regra para ser seguida, são apenas exemplos.
Segundo caso: Quando usamos palavras cuja(s) consoante(s) precedente(s)
[chamada(s) de consoante(s) de apoio] coincide(m), articulando-se de
uma só vez, como em: cozer/fazer, capar/tapar,
retado/arretado, estilhaço/palhaço,
imprudente/acidente, batalha/retalha...
*
Meu recado final *
Aos tecnocratas da poesia, aos ermitões acadêmicos, aos intelectuais de sebos, minhas desculpas.
Não pretendi escrever para vocês, mas sim para pessoas que, como eu, tinham necessidade de alguma coisa básica, trivial, que nem feijão com arroz, rapadura com farinha ou uma boa dose de aguardente de alambique caseiro...bebido enquanto se espera a amada aparecer na pracinha, para namorar escondido dos pais dela. Agradeçam à minha dileta amiga Rosane Vilaronga, a quem eu havia prometido escrever essa cartilha...e ela cobrou!
Espero que seja útil para vocês!