Planeta Literatura
A piabinha do Rio das Velhas
Coluna Planeta Literatura
O que você pensaria da companhia de água de seu município se de repente, durante o seu banho, a água mudasse de cor, tornando-se amarelada ou escurecida e tendo ainda um forte odor malcheiroso, indicativo de apodrecimento desse recurso? Provavelmente você e toda a comunidade atingida por essa verdadeira catástrofe resolveriam se organizar e direcionar-se aos responsáveis para reclamar as necessárias melhorias ao serviço e, quem sabe até, cobrariam indenizações por perdas e danos...
Já pensaram se a natureza fosse capaz de também reagir aos maltratos a ela impetrados pelos seres humanos? Imaginem então se os animais se organizassem em grupos e enviassem petições aos governos e as instituições que ameaçam sua existência ou ainda se as plantas, através de representantes legais pudessem exigir pagamentos reparatórios para as perdas que tivessem sido a elas imputadas?
Isso se pensarmos suas ações dentro de moldes considerados civilizados, já que, tendo em conta todas as agressões e perdas que já tiveram devido às atividades da humanidade, poderiam reagir de forma muito diferente, partindo literalmente para atos violentos e destrutivos...
Essa revolta da natureza já foi, inclusive, trabalhada em animações produzidas para o cinema comercial, caso dos recentes “Os Sem-Floresta” e “O Bicho vai pegar”. Em ambos a expansão desmedida dos interesses da humanidade obriga os animais a se readaptar ao mundo em que vivem, sendo-lhes legados espaços cada vez mais ínfimos para sua sobrevivência.
Como conseqüência dessa situação pouco ou nada confortável, os animais desses desenhos revoltam-se contra a humanidade e a fazem pagar caro por sua ambição desenfreada. Pena que essas histórias sejam apenas fruto da imaginação de alguns roteiristas antenados na questão ambiental e que decidiram devotar ao tema algum espaço na mídia dominante...
Isso não quer dizer que a natureza não esteja dando respostas duras aos castigos que lhe foram aplicados pelos seres humanos em virtude da exploração irracional dos recursos do planeta. O aquecimento global é a maior prova de que o “troco” da natureza está sendo muito mais duro e agressivo do que a princípio qualquer estudioso, pesquisador ou entendido no assunto poderia prever.
O risco de extinção de várias espécies, o degelo dos pólos, o aumento do volume de água dos oceanos, o calor acima do normal que ameaça a própria humanidade ou ainda o risco crescente de acidentes naturais como furacões, maremotos ou tornados tem deixado os países em estado de constante alerta.
O tsunami que se abateu sobre a Tailândia em 2005 ou as enchentes e queimadas que assolam vastas áreas de todos os continentes, o iminente desaparecimento de cidades litorâneas ameaçadas pela elevação do nível dos oceanos e a escassez de água potável prevista para as próximas décadas também são questões/situações que nos levam a repensar o nosso compromisso com o mundo em que vivemos, relacionamento esse tão desconsiderado até poucas décadas atrás (só para lembrar, a questão ambiental só se tornou um importante tema nas discussões globais a partir do final da década de 1960 e início dos anos 1970, portanto há pouco mais de 30 anos atrás...).
E o mais interessante é perceber que os dilemas ambientais recentes que estamos vivenciando estão ganhando cada vez mais espaço na mídia (jornais, televisão, rádio, internet, revistas) e, dessa forma, atingindo um número crescente de crianças e adolescentes que se informam através desses recursos.
Nesse sentido acredito que é de grande importância que eles também sejam esclarecidos e incluídos na compreensão dos problemas e na busca de soluções e alternativas para essas dificuldades. Afinal de contas eles (crianças e adolescentes) irão herdar o planeta já comprometido em várias de suas bases e, se queremos ao menos que “as fichas sejam colocadas na mesa” e que “o jogo seja realmente limpo”, devemos ser francos e honestos. Sei que isso pode ser aparentemente cruel ou doloroso, mas não temos mais tempo a perder...
Acho que, inclusive, o trabalho deve se iniciar com as crianças da Educação Infantil e das primeiras séries do Ensino Fundamental. Nesse sentido recomendo a utilização dos filmes mencionados e também a adoção do livro “A piabinha do Rio das Velhas”, de Rosa Ayres (com ilustrações belíssimas de Andréa Vilela), da Editora Paulinas.
O foco desse livro destinado ao público infantil é a poluição de nossos rios e como os peixes reagiriam se pudessem se organizar contra o lançamento de dejetos dos mais variados tipos e origens em suas águas. Questão importantíssima também no que tange a preservação das fontes de água potável afetadas pela poluição doméstica e industrial, esses temas podem ser despertados e trabalhados entre as crianças que freqüentam os primeiros dois anos do Fundamental ou os últimos estágios da Educação Infantil. Confiram!