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Matemática

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva Sou um professor de Economia, cego, aventureiro acompanhado por dois fiéis escudeiros, ambos com quatro locomotores, um com patas, outro com cascos. Já me considero do tempo dos computadores, mas, enquanto estudante, usava muito o Braille e, principalmente, a boa-vontade dos amigos. Hoje, sem ver, ensino a quem vê e a quem não enxerga também.

Cubaritmo
Coluna Matemática

Um dos problemas mais básicos para ensinar-se aritmética às crianças cegas de nascença é como fazer contas. É que não se podem desenhar maçãs para elas. Em outras palavras, a abstração das crianças que enxergam vem visualmente dos artifícios de contar laranjas, maçãs e tudo o que se vê de gravuras nos livros de aritmética. Para uma criança cega de nascença, é preciso que se ponham maçãs, laranjas ou bolas-de-gude em suas mãos e que se façam operações a partir daí.

Um brinquedo excelente para isso costumava ser o dominó, pois tinha rebaixos correspondentes aos números que representavam. De uns tempos para cá, os dominós passaram a ter sete rebaixos, pintando-se somente os que representam o valor de cada peça, resolvendo o visual com um molde só mas alijando a criança cega de brincar, na maior negação do que se pode considerar com desenho universal ou mesmo de inclusão social.

Depois de se ensinarem os números, especialmente os algarismos em Braille, costuma-se passar ao cubaritmo. Antes de explicar como ele funciona, é preciso que se entenda o Braille, que passo a explicar da forma mais simples e menos visual possível. Trata-se de um código baseado em seis pontos dispostos em duas colunas de três.

A coluna da esquerda, de cima para baixo, é numerada de 1 a 3, enquanto a da direita é composta dos pontos de 4 a 6. As letras de A a J ocupam os quatro pontos superiores, ou sejam 1, 2, 4, 5. De K a T são as mesmas combinações, acrescentando-se o ponto 3. De U em diante, exceto o W, são as mesmas combinações usadas para de A a J, acrescentando-se os pontos 3 e 6.

Como não se trata de um texto dobre Braille, importa saber que os algarismos são as mesmas combinações de A a J, sendo J o 0. A tabela a seguir apresenta-os:

Algarismo

Código

1

1

2

1,2

3

1,3

4

1,4,5

5

1,5

6

1,2,6

7

1,2,4,5

8

1,2,5

9

2,5

0

2,4,5

Se fizermos um cubo em que, numa face tenhamos somente um ponto num canto, virando-o, podemos representar 1 ou ",". Na segunda face, poremos dois pontos alinhados, que podem formar o 2 e o 3. Na terceira, poremos três pontos próximos de três dos quatro vértices, que permitirão formar o 4, o 6, o 8 e o 0, dependendo da posição. Na quarta face, poremos dois pontos na diagonal, permitindo representar o 5 ou o 9. Na quinta face, poremos quatro pontos correspondentes aos quatro vértices, equivalendo ao 7 e, finalmente, na sexta face, deixa-se um traço contínuo para formar sei lá o que. Resumindo, o cubo é capaz de formar qualquer algarismo, o que pode parecer genial. Teoricamente é.

O cubaritmo é uma caixa com uma grade quadriculada em cima, uma chapa corrediça no meio, rente à grade, e uma gaveta no fundo. Esta gaveta está cheia de cubos como os que descrevi. Para fazer uma conta, fecha-se a chapa e abre-se a gaveta, retirando-se os cubos que se colocam nos orifícios da grade, formando os números exatamente como se faz em uma conta visual.

Calcula-se mentalmente o resultado, da direita para a esquerda, escrevendo-se o resultado na linha seguinte, sem tirar nem pôr, como quem enxerga faria à tinta no papel. Para desmanchar a conta, basta fechar a gaveta e correr a chapa, tal que os cubos caiam novamente ali dentro.

O que, à primeira vista, parece uma solução espetacular, é um tormento para a criança cega porque o raciocínio de quem não vê não tem nada a ver com o de quem enxerga. É uma tentativa de obrigar um tipo de abstração que não tem correspondente no imaginário de um cego. Além disso, é de extrema lentidão, o que faz com que as provas tenham de ser feitas em sala separada e em tempo muito maior que o dos demais alunos, ajudando a excluir a criança do convívio dos companheiros. Em sala separada porque é preciso concentração perfeita e muito lenta porque a criança precisa transcrever para o papel tudo o que fez, dobrando o trabalho.

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