Planeta Educação

Entrevistando para Saber

Renata Dias Jornalista formada pela Universidade do Vale do Paraíba; Pós- graduada em Assessoria, Gestão da Comunicação e Marketing na Universidade de Taubaté; Coordenadora de Comunicação na empresa Planeta Educação. E-mail: renata.dias@fk1.com.br

Uma história de conquistas e muita arte!
Entrevistando Rodrigo Hübner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes, 34 anos, nasceu e foi criado em São Paulo. Fundador da Associação Rodrigo Mendes, nos seus trabalhos tem como inspiração os lugares que visitou quando criança, e hoje realiza um trabalho social maravilhoso. É parceiro de várias empresas e seus trabalhos são publicados nas mais diversas peças de arte do Brasil.


Planeta Educação - Onde você nasceu?

Rodrigo Hübner Mendes - Eu nasci em São Paulo, sou o irmão do meio de três, estudei a vida toda em um colégio Alemão, estilo conservador. Durante a minha infância comecei a pensar o que eu gostaria de fazer, e na adolescência decidi que queria ser médico.

Gostava de jogar futebol e quando eu tinha 14 anos eu machuquei o joelho, rompi o menisco, comecei a fazer fisioterapia e fiz uma pequena cirurgia em um ortopedista em São Paulo. Ele resolveu o meu problema, eu achei aquilo o máximo e reforçou a minha vontade de ser médico. No 3º colegial comecei a estudar para o vestibular, estava fazendo cursinho e no ano seguinte ocorreu o meu acidente.

Fui assaltado em São Paulo, tive então uma ruptura, uma mudança de caminhos e, de cara tive que parar de estudar por um tempo. Fiquei cinco anos sem estudar e só voltei em 1995. Tinha uma outra proposta; comecei a me dedicar à fisioterapia o dia inteiro, sempre em passos pequenos.

Depois de um ano nesse ritmo, comecei a ter condições de sair um pouco mais de casa e foi quando recebi o convite pra começar a pintar.

Planeta Educação - Como foi o convite?

Foi bem casual. Eu estava na festa de uma amiga, um artista chamado Luca Vitale me viu na cadeira de rodas, e perguntou se eu gostaria de pintar. Eu nunca tinha pintado, só tinha feito atividades na escola, de Educação Artística, foi uma novidade.

 Eu não me interessei muito no início, estava mais preocupado em voltar a estudar, retomar minhas atividades. Então decidi ligar para esse artista porque minha vida era muita rotina. Pensei talvez que pintar seria um lazer, e foi exatamente isso, comecei a pintar e passou a ser o momento mais prazeroso do meu dia, uma forma de retomar minha autonomia.

 Fazia o que eu queria, no tempo que eu queria. Comecei a gastar minha energia pra isso e produzir bastante. Percebi que a arte era uma alternativa muito interessante para as pessoas que estivessem passando situações semelhantes a minha. No meu caso era uma fase ainda incerta do que eu poderia fazer no futuro.

Planeta Educação – O seu sonho foi interrompido, mudou totalmente a rotina da sua vida em função do acidente, como foi essa mudança?

Tive momentos que eu não gostei de ter que mudar, mas senti uma coisa nos primeiros meses, sabia que antes de qualquer coisa eu tinha que conseguir sobreviver àquela questão. Eu tive uma lesão bem problemática, poderia ter morrido.

 Depois que passou essa coisa do sobreviver, eu sempre ficava pensando que de alguma forma, eu me tornaria médico ou qualquer outra coisa, eu pensava em encontrar um caminho. Não foi um ambiente de sofrimento como poderia ser, até porque eu tinha minha família toda do meu lado e os amigos. Eu tive uma adolescência muito densa, muito boa, eu acho que eu mudei da verdadeira forma.

Planeta Educação: Você teve problemas para aceitar essa mudança?
É lógico que várias coisas você passa a ter que aceitar. Você depende das pessoas e tem outro ritmo das coisas, eu não tive nenhuma crise.

Planeta Educação – Como nasceu a Associação Rodrigo Mendes?

Eu sempre tive minha família e muito amor, outras pessoas não têm nada disso, então eu poderia criar um curso de artes, que pudesse ajudar as pessoas. Foi assim que nasceu a idéia da Associação Rodrigo Mendes. Fizemos uma exposição, aluguei uma casa e começamos.

 O artista que me incentivou a pintar era o professor da escola e começamos com 10 alunos bem pobres. Na época eu tinha 20 anos, nunca tinha trabalhado, sem experiência nenhuma, foi um começo bem desestruturado. Então eu fui percebendo a responsabilidade, tinha que cuidar da escola, minha família depositava expectativa nisso.

Quando eu percebi que tinha toda a necessidade de informação, eu decidi estudar administração, em função até do projeto. Prestei vestibular, comecei a fazer Administração em São Paulo e foi fundamental, trouxe uma série de contatos. Em 1998, último ano da faculdade surgiu um convite para trabalhar em uma empresa multinacional.

Eu achei que poderia ser uma oportunidade de crescimento profissional para mim, como gestor, administrador e que seria interessante para a própria escola. Aceitei o convite, fiquei quatro anos trabalhando como administrador de empresas em um ritmo super pesado de trabalho, cada hora um cliente, assuntos bem distintos, mas foi uma experiência muito rica. Aprendi muito.

 Em 2002 saí desta empresa e voltei pro dia a dia da nossa escola e comecei o mestrado que terminei em 2005, sempre relacionado ao trabalho da escola.

Planeta Educação - Como foi seu primeiro contato com a arte? O primeiro trabalho e qual o impacto?

Prazeroso.

A maioria dos meus trabalhos se refere à paisagem que eu conheci quando criança e adolescente. É muito forte você conseguir transferir para o papel alguma imagem que foi importante na sua vida, é um processo muito prazeroso. Trabalho pelo prazer, pela possibilidade que eu tinha de criar, transferir e ter um resultado final.

Planeta Educação - Como a Arte pode ajudar na inclusão social?

De várias formas. A arte lida diretamente com a questão da criatividade, da capacidade de inventar, de pesquisar, com a história da humanidade, da arte contemporânea e está sempre buscando as questões de outras formas de criar.

Ser criativo é uma necessidade de qualquer ambiente. Um aspecto de qualquer ser humano é você ter repertório, ter cultura. Arte também demanda o mínimo de capacidade de organização, de construir projeto pessoal.

O artista por mais culto que ele seja, se ele não tiver a capacidade de planejar um pouco, administrar o seu tempo, seu material, dificilmente ele vai conseguir ter uma produção que possa ser reproduzida ou exposta.


Inclusão Social - Buscar estratégias que se traduzem em melhores condições de vida para a população, na igualdade de oportunidade para todos os seres humanos e na construção de valores éticos socialmente desejáveis por parte dos membros das comunidades escolares é uma maneira de enfrentar essa situação e um bom caminho para um trabalho que visa à democracia e a cidadania. (Mural com os artistas da ARM que ilustram a escola).

Planeta Educação – Quem são as pessoas que procuram a Associação para trabalhar com arte? Ligadas também a arte ou como você, que procurou como uma forma de lazer?

Tem várias situações. Às vezes são os pais de uma criança com alguma deficiência, pessoas que já gostam de arte e encontram aqui um lugar para se desenvolver, pessoas que vem por lazer, senhoras já aposentadas querendo ocupar o tempo, ter uma atividade, além de instituições que procuram em busca de uma profissão pela arte e algumas pela geração de renda. Diversos perfis.

Planeta Educação – Há várias formas de produção de artes, como música, poesia etc. Você falou também que quando começou tinha apenas 10 alunos, hoje a Associação tomou uma dimensão bem extensa, como se deu esse processo?

Foi gradual, passo a passo e teve alguns marcos, como: a minha passagem pela faculdade que foi fundamental, ganhamos um prêmio e com isso conseguimos a primeira parceria institucional com a Tilibra e o apoio de uma outra Fundação Internacional.

A minha experiência profissional também foi importante, a mudança para um espaço maior, e agora o início do trabalho com a Formação dos Professores. Fomos criando uma rede de relacionamento.

Planeta Educação – O trabalho de Formação com o Educador é um foco diferente que a Associação começou a dar, como funciona?

Isso faz parte de uma demanda que percebemos. Então se criou um programa para isso, e o que agente tem feito é ampliar um pouco as possibilidades desses professores, por meio da arte. Na escola regular o próprio professor teve pouquíssimo contato sobre as possibilidades de uso e aplicação da arte com seus alunos.

Agente percebe que ampliar o repertorio desses professores é importante, e por outro lado, é uma coisa mais sutil, usamos a arte como uma área de reflexão. A arte tem muitas relações com a inclusão, promovemos discussões sobre vários conceitos, vários princípios para construir uma escola inclusiva, por meio da prática da arte e é muito interessante.

Entrevista: Renata Dias

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