Diário de Classe
A Linha do Tempo das Ditaduras Militares
Ditadura Militar
As ditaduras militares latino-americanas vigentes nas décadas de 1960 e 1970 assustaram e oprimiram muita gente; silenciaram oposicionistas e criaram uma atmosfera de terror em todos os países em que vigoraram; fizeram perdurar um sistema político antidemocrático e revanchista que suprimiu avanços sócio-políticos conseguidos às custas de um lento processo de amadurecimento cultural; impuseram valores e determinaram diretrizes que iriam influenciar a história do Brasil, da Argentina e do Chile por um período muito mais longo que a própria duração de seus ciclos de governo.
Cientes dessas informações, tínhamos um desafio pela frente, permitir que os estudantes conseguissem entender o contexto em que viviam cidadãos dessas nações durante a época em que os generais mandavam nos destinos de seus países.
Para que pudéssemos atingir esse objetivo, resolvemos fazer um levantamento de recursos disponíveis, além do texto do material utilizado em nosso curso, que pudessem compor um painel bastante amplo da realidade desses países sul-americanos.
Fizemos então uma breve relação de livros (“A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Derrotada”, “Brasil Nunca Mais”, “O que é isso, Companheiro?”, “Os Carbonários”), de filmes (“Pra Frente Brasil”, “Lamarca”, “A História Oficial”, “Missing – O Desaparecido”, “Chove sobre Santiago”, “O que é isso, Companheiro?”), de links na Internet, e procuramos reportagens recentemente publicadas em artigos de jornais e revistas que abordassem esses assuntos.
De posse dessas informações tentamos fazer com que os alunos (do 2° ano do ensino médio) entrassem rapidamente no clima do assunto e propusemos dramatizações dos procedimentos adotados pelos torturadores do sistema repressivo dominante.
Filmes como “Lamarca”, “Pra Frente Brasil” e “O que é isso, Companheiro?” possibilitaram
aos estudantes entender um pouco do cenário sócio-político da época da ditadura.
A elaboração dos roteiros, a estruturação das cenas e a dramatização seriam elementos avaliados, por esse motivo os estudantes deveriam se preocupar em prestar muita atenção aos depoimentos lidos ou apresentados em aula e, também, a seqüência previamente escolhida do filme “Lamarca”, de Sérgio Resende, esclarecedora quanto ao assunto.
Outra providência importante foi dar aos alunos acesso a textos disponíveis no Planeta Educação que trabalhassem os temas propostos. Foram escolhidos os seguintes artigos:
- “O que é isso, Companheiro?” – Anos de Chumbo – da coluna Cinema na Escola
(http://www.planetaeducacao.com.br/new/colunas2.asp?id=75).
- Pesadelo 1964 – A Tortura nos porões da ditadura militar brasileira – da coluna De Olho na História
(www.planetaeducacao.com.br/new/colunas2.asp?id=187).
- “A Ditadura Envergonhada” – sobre o livro de Elio Gaspari – na coluna Planeta Literatura
(www.planetaeducacao.com.br/new/colunas2.asp?id=232).
Tendo lido as referências e o material utilizado em aula, foi dado aos grupos de alunos o tempo de um dia (isso mesmo, 24 horas; sem mais, nem menos) para que pudessem organizar suas dramatizações. O propósito de se trabalhar com períodos de tempo reduzido como o dessa atividade é obrigar os estudantes a lidar com a adversidade, obrigando-os a improvisar, a buscar respostas rápidas e, acima de tudo, a conseguir trabalhar de forma muito objetiva.
Não havia tempo a ser desperdiçado, por esse mesmo motivo, ouvi muitas queixas e reclamações, assim como vários grupos dizendo que seriam incapazes de compor a apresentação e entregar relatórios do trabalho do grupo e roteiros digitados de um dia para o outro. Fizemos uma breve negociação através da qual adiamos a entrega dos trabalhos escritos para dali a quatro dias, eles poderiam então, se concentrar na produção dramática do dia seguinte.
A Dramatização foi fundamental para que os grupos sentissem na pele as dores e
dificuldades dos opositores do regime linha-dura.
Apesar dos temores anunciados na véspera, os estudantes estavam muito empolgados com as apresentações no dia previsto. Nenhum dos grupos faltou com a responsabilidade e, estavam todos munidos de maquiagem, figurinos, objetos para cenografia, elementos para a produção de efeitos especiais e, para minha surpresa, uma câmera de vídeo com a qual acabaram gravando todas as apresentações.
Os grupos, formados por 3 ou 4 elementos, se organizavam antecipadamente e tinham 10 minutos para realizar sua performance.
Tivemos representações compenetradas e muito caprichadas por parte de alguns alunos. A maioria se aplicou bastante para criar um clima representativo das hostilidades reinantes no ambiente dos porões onde ocorriam as torturas. Vimos vários tipos de agressões utilizadas pelos torturadores sendo encenadas, do pau de arara aos choques elétricos, das queimaduras provocadas por cigarros à tortura psicológica, dos enforcamentos aos afogamentos...
Todas as apresentações foram acompanhadas pela coordenadora do ensino médio, que a despeito das circunstâncias degradantes da tortura, apreciou o trabalho dos jovens. Fui questionado quanto ao fato de estarmos dando ênfase aos aspectos mais aterrorizantes daquela história. Expliquei que aquilo era apenas uma etapa, complementada por explicações, leituras e pela confecção de linhas do tempo sobre as ditaduras militares latino-americanas.
Essa sensibilização, acompanhada por uma verdadeira imersão no ambiente a partir das leituras e da apreciação dos textos da Internet tinha ainda, para finalizar, um trabalho de recomposição do percurso que levou esses países a viver sob a égide ditatorial. Para tanto reutilizamos um conceito e uma proposta de trabalho que já havíamos usado com sucesso no ano anterior, as linhas do tempo.
O resgate cronológico dos eventos nos permitiria ver os acontecimentos históricos a partir de um suceder de fatos e eventos que explicariam por que tais forças conservadoras e reacionárias chegaram ao poder.
Livros com relatos de época ou pautados em extensa pesquisa iluminaram os caminhos
das aulas ao permitirem descrições e explicações importantes dos acontecimentos
políticos,
culturais,
sociais e econômicos
das décadas de 1960 e 1970.
O resgate, no caso brasileiro, por exemplo, passava pela necessidade de voltar ao período de governo de Jânio Quadros, sua renúncia e, a posterior posse do vice João Goulart, de quem haviam sido retiradas às prerrogativas presidenciais em virtude da implantação no país de um sistema parlamentarista de governo, tudo isso ainda no ano de 1961.
Acontecimentos como o plebiscito em favor do retorno ao presidencialismo, o golpe em 31 de março/1° de Abril de 1964, o estabelecimento dos Atos Institucionais, a cassação dos mandatos políticos e dos direitos individuais, a decretação do estado de sítio, a tortura, o surgimento dos movimentos de oposição ao regime, o milagre econômico, a censura e tantos outros temas relacionados teriam que aparecer na linha do tempo sobre a ditadura militar brasileira.
Apesar de termos trabalhado um pouco dos movimentos que afetaram a vida de nossos vizinhos da América do Sul, demos maior ênfase aos acontecimentos do cenário nacional. Ao pedirmos a linha do tempo, foi concedida aos alunos total liberdade para optar com qual histórico gostariam de compor suas linhas do tempo: o argentino, o brasileiro ou o chileno.
Por razões de facilidade e disponibilidade de recursos, a maior parte dos grupos optou por trabalhar com o caso brasileiro.
Um dos poucos requisitos fundamentais quanto à produção das linhas do tempo sobre as ditaduras era que o trabalho usasse e abusasse da criatividade, exatamente como havia acontecido no outro projeto em que havíamos utilizado a mesma proposta (no ano anterior, havíamos feito nosso primeiro projeto com linhas do tempo acerca da história das religiões, e o resultado foi fantástico).
A apresentação das linhas, feita alguns dias depois (aproximadamente uma semana), foi notável. Tivemos desde produções que se espelharam em periódicos jornalísticos como a Folha de São Paulo (utilizando inclusive as mesmas letras padronizadas da folha de rosto desse importante jornal brasileiro), passando por uma linha do tempo feita em um rolo de papel higiênico (como se tivesse sido produzida por prisioneiros no cárcere, que não tinham a seu dispor nenhum tipo de material para escrever), por um outro trabalho que impressionava por colocar na linha um boneco ao qual haviam sido atrelados fios elétricos numa clara alusão a tortura ou ainda através da produção de uma “televisão” onde uma edição especial do Jornal Nacional confeccionada em papel (num rolo) podia ser assistida pelos demais alunos.
O desfecho não poderia ter sido melhor. Tenho certeza que, depois de tanta pesquisa e empenho, dificilmente tal temática será esquecida pelos estudantes.