A Semana - Opiniões
João Luís de Almeida Machado é consultor em Educação e Inovação, Doutor e Mestre em Educação, historiador, pesquisador e escritor.

O professor brasileiro do ensino fundamental público e seu perfil - 02/06/2015
João Luís de Almeida Machado

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Pesquisa Conselho de Classe da Fundação Lemann e do Ibope revela cotidiano, formação, expectativas e frustrações de docentes de escolas públicas brasileiras

A Fundação Lemann e o Instituto Ibope Inteligência realizaram a pesquisa Conselho de Classe juntamente a professores de escolas públicas brasileiras espalhadas por todo o território nacional com o intuito de entender melhor quem é o profissional que está em sala de aula a lecionar para crianças e adolescentes. A pesquisa foi realizada juntamente a mil professores de escolas públicas que atuam no Ensino Fundamental em todo o país. E o que foi possível auferir?

Para início de conversa a pesquisa indica que a média de idade dos professores brasileiros é de 40,8 anos. No tocante a faixa etária dos docentes, há uma preocupação quanto ao fato de que 80% dos professores pesquisados tem 33 anos ou mais enquanto apenas 20% disseram ter 32 anos ou menos. A renovação é lenta, temos um professorado maduro, o que por um lado é bom pois denota maior experiência e conhecimento dos procedimentos e conteúdos relacionados ao trabalho em educação. Por outro lado, como a renovação é pequena, motivada por fatores como baixos salários, condições inadequadas de trabalho, baixo reconhecimento social, entre outros, temos no horizonte uma perspectiva de não contarmos com mão de obra na área em poucos anos, o que já está acontecendo agora com algumas matérias específicas, em que faltam docentes, como matemática, ciências, inglês ou geografia.

Informação já esperada refere-se ao fato de que o universo educacional público nos segmentos de EF1 e EF2 é majoritariamente dominado pelas mulheres, que constituem 81% do total de docentes destes segmentos enquanto somente 19% são homens. Na medida em que avançamos nos níveis de ensino pesquisados, por exemplo, do Ensino Fundamental 1, no qual prevalecem professoras generalistas, para o Ensino Fundamental 2 ou para o Ensino Médio, com os especialistas se tornando responsáveis pelas diferentes áreas do conhecimento, aumenta a participação masculina.

Pela pesquisa ficamos sabendo que os professores brasileiros trabalham bastante. Em média eles têm carga horária equivalente a 36 horas. Pode parecer pouco, mas há todo o planejamento que antecede as aulas e que não aparece nestes números. Os professores têm ainda que corrigir provas e cadernos e, mais modernamente, acompanhar atividades on-line, que ainda não é dado expressivo na realidade da maioria, mas que também se incorpora a seu dia a dia. O que é preocupante é que 60% deles têm carga horária superior a 40 horas semanais, com 17% que responderam o questionário tendo 41 horas de aula ou mais. Como garantir boas aulas, estudo permanente, atualização regular se a jornada é tão extensa? Esta é uma preocupação procedente que não é tratada com o devido cuidado pelas autoridades. São também regulares os casos de professores que atuam em mais de uma escola ou rede de ensino ou que, por vezes, assumem alguma outra atividade, como um “bico”, para aumentar sua renda. Vender roupas, perfumes ou alimentos, por exemplo, estão entre estas práticas.

A boa notícia é que somente 4% dos docentes pesquisados revelou que sua formação máxima foi o Ensino Médio/Magistério; este índice é equivalente ao de professores que responderam já ter concluído o mestrado ou doutorado. A informação de que 96% dos respondentes têm, no mínimo, a graduação em pedagogia ou uma licenciatura concluída, dentre os quais 47% têm especialização concluída, uma grata revelação da pesquisa. Contar com docentes mais qualificados significa ter, desde já, maior qualidade de ensino nas escolas brasileiras pois tais docentes com formação superior tiveram acesso a formação plena, que lhes garante conhecimento de didática, metodologia de ensino, legislação educacional, conteúdo específico das diferentes áreas do conhecimento, uso de tecnologia na educação... A perspectiva, tendo em vista esta informação, é a de que em médio prazo, já possamos ter melhores resultados na formação dos alunos do Ensino Fundamental.

Ainda no tocante a formação dos professores, a pesquisa revela que a maioria dos professores deste segmento cursou escola pública no Ensino Fundamental (86%) e também no Ensino Médio (81%) enquanto que, no Ensino Superior o índice de formados que cursaram instituição pública cai para 34%.

Ainda que os salários sejam baixos para 57% dos entrevistados ser professor representou aumento de renda em relação a seus pais. Em 27% dos casos houve diminuição de rendimento e para 11% a renda manteve-se no mesmo padrão quando comparados a seus progenitores. Isso é facilmente compreensível quando se observa que os professores têm índice de escolaridade superior a de seus pais já que apenas 7% dos pais e 9% das mães dos docentes inquiridos na pesquisa concluíram cursos universitários.

Quanto a perspectiva de futuro dos profissionais que atuam nas salas de aula do ensino fundamental brasileiro, os números revelam que 69% dos professores esperam continuar na mesma função nos próximos 5 anos; há aqueles que neste mesmo período de tempo pretendem de aposentar (9%); alguns que gostariam de mudar de área de atuação profissional (5%), abandonando a educação; e os restantes 17% querem mudar de função na área de educação, assumindo outras ocupações, como a coordenação ou a direção, por exemplo.

Para 72% dos docentes entrevistados a maior satisfação da profissão está em contribuir para o aprendizado do aluno; o índice de satisfação é de 65% quando os professores pensam em sua responsabilidade social; em terceiro e quarto lugares estão o convívio com os colegas de trabalho na escola e as oportunidades de aprender mais, ambas com 54%. Os fatores de menor satisfação foram as condições de trabalho (23%), o salário (20%) e o reconhecimento social (17%).

Quanto aos salários, 70% dos professores têm clara percepção quanto ao descompasso entre os salários em sua carreira e a de outros profissionais com mesma formação. Médicos, engenheiros, arquitetos, advogados e praticamente todos os demais profissionais graduados ganham, proporcionalmente, salários mais altos que os professores brasileiros. Todos passaram por formação universitária que representou tempo, custos, esforço, muita dedicação e estudo, então porque os professores ganham menos que os outros profissionais? Esta é a questão que tanto incomoda aos docentes.

Os professores também foram questionados na pesquisa quanto aos fatores de impacto no trabalho escolar que desempenham. Responderam que o trabalho precisaria contar com acompanhamento psicológico aos alunos, ações efetivas para combater a indisciplina, projetos visando combater a defasagem de aprendizagem de alunos aprovados e políticas públicas que os valorizem e protejam, oferecendo melhores salários e condições gerais de trabalho.

Segundo a pesquisa, os professores sabem de sua responsabilidade e papel de importância para a consecução da educação, mas no tocante a responsabilidade de familiares, professores e alunos em relação a aprendizagem, os professores, numa escala de 0 a 5, atribuem maior peso a família (4,26), depois a eles mesmos (3,82) e, por fim, aos alunos (2,92). Isso demonstra o quanto sentem a ausência dos pais ou responsáveis no apoio as ações educativas que promovem nas escolas e, mesmo, o quanto as famílias estão legando a escola responsabilidades que lhes competem pois a educação escolar tem também foco na formação da personalidade, do caráter, do cidadão, mas isso não é seu principal objetivo e, mais que isso, é complementar a formação que os pais devem prover a seus filhos.


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