Punição ao mérito - 13/03/2015
Wanda Camargo
Professores e orientadores pedagógicos de colégios públicos tem relatado um fenômeno que não é novo, mas que está atingindo proporções alarmantes. Trata-se do verdadeiro massacre que muitos estudantes promovem contra seus colegas mais esforçados, mais focados e mais estudiosos.
O bom aluno, hoje chamado pejorativamente de “nerd” pelos demais, sempre enfrentou algum tipo de oposição, como se tivesse comportamento inadequado, ou seja, buscasse apenas aprovação dos professores e/ou boas notas.
Em nossos tempos de isonomia forçada, esses estudantes sofrem bullying constante com agressões verbais e até físicas; o que é mais preocupante quando se sabe que o estudo geralmente é o único caminho legítimo para melhoria de suas condições de vida.
No mundo dos sonhos de quem procura destruir tudo que parece sobressair à mediocridade, o nivelamento por baixo asseguraria igualdade de oportunidades, justiça para todos através da redução do nível das competências. No mundo real os mais capazes terão melhores oportunidades, sabem disso os pais que se sacrificam para dar a seus filhos condições de estudar, e os estudantes que se esforçam para corresponder a esse sacrifício.
As pessoas tendem a se refugiar em suas fragilidades e problemas, reais ou imaginados, fazendo disso um escudo contra a necessidade de esforço e coragem para supera-los. Quando em uma determinada comunidade com certo grau de homogenia alguém se supera, e realiza mais do que se poderia esperar, há dois padrões de reação: os que se espelham na realização, veem nela a prova de que é possível vencer as dificuldades; e os que a consideram ameaça, preferem continuar acreditando que seus fracassos devem-se unicamente a condições injustas e imutáveis de origem. O surpreendente é que essas mesmas pessoas admiram políticos, artistas e atletas que superaram dificuldades e tiveram sucesso, como se o único sucesso admissível fosse aquele decorrente de talento nato e sorte, e não o que também depende de esforço contínuo, estudo e trabalho.
Ao lado da necessidade efetiva de tornar a sociedade, como um todo, mais equânime e solidária, o que requer adesão a um projeto político – no sentido lato – de conscientização social, redução de consumo, oferta de oportunidades, temos o aspecto do empenho pessoal para a melhoria da condição educacional e cultural, o que não é simples, parece mais fácil gritar palavras de ordem e investir contra aqueles que estão tentando aprender mais e melhor.
Certo grau de conformidade com os padrões gerais da sociedade é indispensável para o seu funcionamento, se cada um de nós agisse apenas de acordo com nossa vontade a vida poderia se tornar muito difícil para todos. Esperar pacientemente em filas pode ser desagradável, mas é ainda a maneira mais justa de proceder, a alternativa seria uma correria em que os mais fortes teriam prioridade sobre os que chegassem primeiro. Isso, evidentemente, não significa que todas as regras são boas e imutáveis, devem ser sempre discutidas, avaliadas, mudadas se necessário.
Os que rejeitam o mérito podem se tornar perigosos, agredirão aqueles que lhes mostrarem, ainda que involuntariamente, que há caminho para algo melhor.
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